terça-feira, 15 de março de 2011

O que sobrou do céu.

   O terremoto. O tsunami. E a irradiação. Sim, esse é o Japão - irreconhecível! - depois d'uma sequência de fatos trágicos que me faz dar um pouquinho de valor na vida (ainda mais!). Desde a ocorrencia, perdi a conta de quantas vezes li a seguinte frase na internet: "O que você faria? O que você faria se soubesse que só teria um ou dois dias? Se você soubesse que iria morrer...". E resposta deve estar dentro de mais duas perguntas "O que você quer viver? O que você quer fazer da sua vida?". Olha aí, o mundo tão cheio de possibilidades... E de repente "Bum", a terra mexe, vem a onda, a usina explode. E a cada imagem que eu assisto do outro lado do mundo, meu coração diz "Meu Deus, obrigada - eu tenho chances, minha família pertinho de mim, tenho saúde e sorte!".

    Antes do Japão, há mais ou menos um ano, foi a vez do mundo exercer sua solidariedade diante do Haití. Vi uma reportagem na semana do carnaval sobre a situação atual do país. Enquanto todos cochilavam no sofá, meus ossos se contraiam e meu coração ficava apertado ao ver aquelas cenas de miséria extrema. Gente comendo a mesma banana estragada dos porcos. A água suja. A ausência de energia e saneamento básico. Destroços por todos os lados. Lembranças tão evidentes de um momento ruim. Cenas da idosa deitada na calçada, suja e com fome. E o menino que correu quilômetros - com um sorriso no rosto - por uma fruta. A cena. O contexto. A situação. A falta de condição. A falta. Isso resume tudo que vi: falta. E se for pensar nisso (e a gente tem que pensar nessas coisas pra cair na real!), a gente tem tudo - e muitas vezes não se dá conta. Então a gente reclama, enrola, xinga... por coisas que nem importam tanto assim, eu lhe garanto. No final das contas, o que realmente importa? O que nos faz feliz?

   A gente pode marcar um "X" na frente de tantas opções e depois de um suspirro, com o peito cheio de ogulho, dizer "Vamos lá, eu consigo!". Eu sei, ás vezes falta coragem. Ás vezes, a achamos que não iremos dar conta. Mas por que duvidar tanto de si mesmo? Por que não fazer tudo como se fosse o último dia? Não serei hipócrita. Tenho medos, receios e planos. Muitos planos também. E deixo coisas pra depois. Não diria que é um erro, nem um acerto. Talvez uma atitude natural do ser humano. O importante é prestar atenção no que o corpo, a mente e alma pedem. E eu acredito nos desejos. Uma hora ou noutra a vida nos trás um presente, basta estarmos de olhos abertos. Como diria John Lennon: "A vida é o que lhe acontece, enquanto você está ocupado fazendo outros planos.".
*
Faltou luz mas era dia, o sol invadiu a sala
Fez da TV um espelho refletindo o que a gente esquecia

Faltou luz mas era dia... di-ia
Faltou luz mas era dia, dia, dia

O som das crianças brincando nas ruas
Como se fosse um quintal
A cerveja gelada na esquina
Como se espantasse o mal

O chá pra curar esta azia
Um bom chá pra curar esta azia
Todas as ciências de baixa tecnologia
Todas as cores escondidas nas nuvens da rotina

Pra gente ver... por entre prédios e nós...
Pra gente ver... o que sobrou do céu... o la lá

(O que sobrou do céu - O Rappa)
*

3 comentários:

True life and simple choices disse...

Ai de mim que sou assim romântica, e que as vezes fico na inércia total, apenas vendo as horas e rezando para que o dia acabe, mas tem dias que acordo na velocidade max permitida, e os sonhos se tornam reais, bejus, muito loko o texto.

Pezoti - "O Velho" disse...

Excelente! Tenho ctz que os japoneses vão reconstruir tudo com uma maestria suprema, como fizeram após a 2ª Guerra.

Mas, me pergunto, quantas pessoas pensam em viver seus sonhos? Quantas pessoas fazem valer o sentido de viver a vida? Quantas pessoas sabem quem são e o que querem da vida? E realmente, falta vontade, falta romper barreiras, transcender limites, tanta coisa. Mas, acima de tudo, falta a vontade de virar o jogo.

Como dito em Matrix, podemos apenas indicar a porta, mas quem deve abri-la, é você.

Roxy disse...

O que sobrou do céu? Esperança... mesmo sendo difícil mante-la viva com tantas coisas acontecendo. Parabéns pelo texto!